Sobre a Freguesia

Síntese da história de Loriga

 

Enquadramento geográfico

Loriga é uma vila do concelho de Seia, distrito da Guarda, situada na parte sudoeste da Serra da Estrela, e dista 20 km de Seia, 80 km da Guarda e 9,2 km da Lagoa Comprida. Tem uma povoação anexa o Fontão, e faz parte do Parque Natural da Serra da Estrela.

Está situada a cerca de 770 m de altitude, é rodeada por montanhas, das quais se destacam a Penha dos Abutres (1828m de altitude) e a Penha do Gato (1768m) e a ribeira de Loriga que resulta principalmente de duas ribeiras[1]: a da Nave e a de São Bento. A ribeira da Nave corre num vale glaciar e o seu perfil apresenta na parte inicial secções de declive, que separam covões escalonados – Covão Boieiro, Covão do Meio, Covão da Nave e Covão da Areia. Segundo Orlando Ribeiro: “constituem-se uma sucessão de bacias, dispostas em degraus, de paredes escarpadas e fundo aluvial perfeitamente plano e regular, donde emergem, a espaços, ilhotas rochosas arredondadas. A montante, cada bacia é limitada por uma escarpa, e a mais elevada por uma espécie de circo aberto no bordo do planalto. Para jusante, o fundo do vale eleva-se também numa ladeira suave contrária ao escoamento das águas, atravessado pelo ribeiro numa garganta pequena, mas muito apertada, a que se segue uma cascata e uma bacia inferior”[2].

E acrescentam, Arminda Cavaco e Isabel Marques[3], que é: “uma perfeita e grandiosa garganta em U, no rebordo do planalto mais elevado, correspondente ao perfil transversal do Covão da Areia, indica o caminho seguido pela língua de gelo. Moreias laterais contínuas e um pequeno anfiteatro morénico removido evidenciam o limite máximo da descida do glaciar; em secção transversal, são acompanhadas de um nível rochoso desenvolvido por erosão das neves à altura da massa do gelo. Atualmente o curso da ribeira talha, depois da garganta, um vale apertado, meio embutido no velho fundo glaciário de superfícies nuas e alisadas. A ribeira de São Bento, com os afluentes (ribeiro da Cerejeira na margem direita que vem dos Alqueves e o ribeiro das Tapadas que vem da Estevaninha na margem esquerda) tem a sua bacia de receção entre as cristas graníticas que se alinham com os altos de São Bento (1513m) e da Penha do Gato (1768m), e segue uma fratura, bem denunciada pela rigidez do seu curso, sensivelmente paralela ao importante alinhamento Zêzere-Alforfa (NE-SW). Um outro afluente, a ribeira do Cortiçor, segue também uma orientação tectónica. Correndo ambas em direção a Loriga, reduzem bastante o seu interflúvio. O contato xisto-granítico está perto do Malha Pão e do Cabeço do Frade. A erosão vertical é mais forte no xisto, não apenas pela textura da rocha, mas também em função do maior caudal que a ribeira agora possui. O vale aperta-se e aprofunda-se para jusante”.

Hoje, os seus socalcos majestosos – uma obra humana – conferem-lhe uma configuração única e ímpar na região do vale glaciar.

Quanto à origem do termo Loriga, permanecem ainda muitas dúvidas. Porém, segundo o dicionário etimológico da língua portuguesa, o termo Loriga deriva do étimo latino “lõrica”[4] e significa couraça ou saia de malha. (Presume-se, que terá haver com a orografia do local onde está situada), mas este esclarecimento, só acontecerá, quando forem encontrados vestígios inequívocos e escritos… talvez algum fragmento com a inscrição do topónimo, por exemplo!

Das origens à fundação da nacionalidade

Construir uma pré-história sobre Loriga, é ainda nos nossos dias um desiderato impossível, pelo facto de até à data não terem sido aí encontrados quaisquer vestígios deste longo período que vai até à invenção da escrita, por volta de 4.000 a.C. na Mesopotâmia.

Os primeiros vestígios localizados em Loriga são de um período mais subsequente, e foram localizados no denominado castelo/castelejo, onde ainda por volta de 1759, como nos informam as Memórias fornecidas pelo padre Luís Cardoso aos delegados do marquês de Pombal, ser ainda visível a existência de vestígios dos alicerces dos muros.

Em 1966, Carminda Cavaco e Isabel Marques referem também, cito: “(…) algumas cristas descarnadas fazendo lembrar ruínas de castros, (…)”. É neste contexto que assinalamos o desenvolvimento da cultura castreja que percorre o I. Milénio a.C., determinando o cimo dos montes – as suas zonas de preferência – os locais que melhor ofereciam a estas comunidades as condições ideais de defesa, habitação e pastoreio.

Apesar da presença incerta dos celtas no interior do território português, sabemos que a existência, de um bairro em Loriga com a designação de São Ginês poderá estar certamente associado à origem do santo celta São Gens martirizado pelos romanos. Por questões de alteração demográfica entretanto observadas ao longo do I milénio a.C. e também devido a importantes inovações determinadas pelos aspetos económicos, sociais e espirituais destas comunidades de pastores, a zona do Chão do Soito, foi uma área onde estas novas populações encontraram os recursos naturais essenciais – água e melhores terras agrícolas e de pastoreio – para se fixarem. Desse período ainda existe uma espécie de sepultura antropomórfica, popularmente conhecida, como o “caixão da moura”.

Após a chegada dos romanos à península ibérica – século II a.C. – os romanos vão-se fixando por todo o território português, procedendo à romanização do espaço que denominaram de Lusitânia, uma das regiões políticas e administrativas da Hispânia.

O resultado desta romanização, foi tão intenso e tão rico e autêntico que no ano de 1993, após termos procedido a uma prospeção “in sito” no local – Chão do Soito – os vestígios da sua presença foram inequívocos. Como resultado desta intervenção, podemos comprovar que alguns dos vestígios encontrados – antes e agora – se destacam: fragmentos cerâmicos, imbrex e tegulae (telhas) e opus signinum (argamassa feita de cal hidráulica) comprovam o uso e a utilização desta região como de preferida inicialmente. Para atestar esta tese, também na zona circundante foram encontradas mós, caulino e infraestruturas de uma rede viária, que segundo Jorge Alarcão, se julga ser a estrada de Aeminium que atravessava o interior da Beira. A “estrada velha” como também é designada, construída segundo as técnicas e os materiais usados pelos romanos, atravessa toda a localidade e vai constituir até à construção – nos princípios e meados do século XX da estrada EN231 e em 2006 da EN338 – o mais importante eixo de ligação desta região serrana.

Com a derrota dos romanos, o domínio da Hispânia foi nos princípios do século V e até aos princípios do século VIII sucessivamente dominado, primeiro pelos suevos e depois pelos visigodos até à invasão dos muçulmanos no ano de 711, substituindo assim o reino visigodo pelo Al-Andaluz.

 

Dos inícios da nacionalidade à revolução industrial

Com a conquista da individualidade política de Portugal no século XII, Loriga aparece-nos como um lugar, termo e identidade territorial próprias, surgindo a sua alusão:

  • nas inquirições de D. Afonso III (1248-1279) como sendo um senhorio doado a João Rhania[5];
  • nas cartas de confirmação de privilégios no reinado de D. Pedro (1357-1367);
  • na carta de coutadas certas herdades e quintas concedidas a Rodrigo Afonso Machado por D. João I (1385-1433);
  • na carta de doação de D. Afonso V (1448-1481) a Álvaro Machado em 1474;
  • nas cartas de legitimação e na atribuição do foral de 1514, no reinado de D. Manuel I (1495-1521)[6];
  • outorga do foral em 14 de fevereiro de 1514 pelo rei D. Manuel I;
  • em documentação sobre o tratamento e comercialização de panos e da lã, como sendo um importante centro dominador da região, entre os anos de 1516 e 1800, com a sede dos cargos de escrivão das sisas dos panos e de tabelião do público e judicial na vila de Loriga.

O foral e o concelho de Loriga – constituiu até à promulgação do decreto de 24 de outubro de 1855[7], data da sua extinção e de mais 76 concelhos, eram 360 em 1854, passando para 284 em 1855 – foi o mais importante e fundamental documento de compreensão da categoria do concelho e da economia aí predominante.

 

Da revolução industrial aos nossos dias

Com o desenvolvimento industrial dos lanifícios na Europa e depois na serra da Estrela, a vila de Loriga, a partir de 1859[8], inicia o seu ciclo económico – até aqui predominantemente associado à terra e ao pastoreio – na indústria dos lanifícios, sua base identitária até aos anos 70 do século XX, e seu definhamento total no ano de 2005.

A empregabilidade das suas gentes e a base de sustento das suas famílias, até então definida e orientada pelos lanifícios, evitando uma emigração em massa e uma desertificação anunciada, seria a responsável pelo engrandecimento e desenvolvimento da vila de Loriga, apesar dos horários de 10 e 12 horas por dia, e os míseros salários auferidos.

A complementaridade com o trabalho nas terras, que fez escapar à míngua e miséria daqueles que optaram pela permanência, ainda constituía a esperança de ficarem ligados à terra. A terra e a família para muitos, eram porventura o ouro que certamente não iriam encontrar noutras paragens…

O aparecimento do fenómeno industrial na vila de Loriga[9] a partir de 1859, 1863 e 1866 – data da criação das primeiras fábricas – a dos Amores, a da Fândega e a do Regato, Loriga altera o seu “modus operandi”.

Com a fundação das fábricas em Loriga, consuma-se e materializa-se, um passado manufatureiro tradicional surgido no século XVII data da criação da primeira fábrica de panos, na Covilhã. É comummente aceitar esta ligação à Covilhã, pelo facto de em Loriga, o gado ser muito abundante, coexistirem muitos negociantes de lã enriquecidos, se situar entre duas ribeiras com ótimas condições de produção de energia, ter um quotidiano artesanal ligado ao têxtil e, só mais tarde, já no século XX, com o retorno de alguns – poucos – emigrantes no Brasil (hoje mais recordados pela capela de Nossa Senhora da Guia de 1884, o coreto em ferro forjado de 1905, os três fontenários existentes em Loriga de (1905-1907) e o seu contributo na eletrificação da vila de Loriga em 1912.

O ímpeto pelo têxtil possibilitaria ainda a criação de mais unidades:

  • a fábrica da Tapadas em 1873;
  • a fábrica da Redondinha em 1874;
  • a fábrica Moura Cabral em 1874;
  • a fábrica do José Lages em 1932;
  • a fábrica Nunes, Brito em 1948.

No setor de malhas, destacamos as fábricas surgidas no século XX, respetivamente:

  • a fábrica de Manuel Gomes Leitão Júnior – Sociedade de Malhas de Loriga, Lda., em 1946 com a marca Malhas Torre;
  • a fábrica de malhas Gonçalves & Nunes, Lda., com a marca RAMOP, depois Empresa de Malhas Nunes & Abreu Lda., em 1952;
  • a fábrica de malhas Nunes & Companhia, Lda., com a marca Lorilan, em 1969;
  • a fábrica de malhas Empresa de Malhas Reunidas, Lda., com a marca Lorimalhas, em 1973;
  • a fábrica de malhas Pinto Lucas, Lda., (a única em atividade e agora propriedade da Firma HABIMADEIRAS, Lda.,), em 1987;
  • a fábrica de malhas Loriseia, Lda., em 1992;
  • a fábrica de malhas JOMABRIL, Lda., em 1993.
  • As microempresas de malhas em nome de: António Pinto Ascensão, em 1956-1958; Fernando Gonçalves, em 1966; Gomes & Fernandes, Lda., com a marca Lorineve, em 1980 e José Aparício Fernandes, em 1986.

 

A religiosidade das gentes de Loriga foi sempre notória, suportada na sua igreja matriz cujo orago é Santa Maria Maior, nas capelas de Nossa Senhora da Guia, de São Sebastião, de Nossa Senhora do Carmo, de Nossa Senhora da Ajuda e de Nossa Senhora da Au

xiliadora, bem como numa fé inabalável colocada nas tradições da sua Irmandade do Santíssimo Sacramento (1736), na Ementa/Amenta das Almas durante o período da Quaresma e nas várias procissões realizadas durante o ano, com destaque para as festas religiosas e romarias ocorridas no segundo domingo do mês de junho (Santo António); no último domingo de julho (São Sebastião); no primeiro domingo de agosto (Nossa Senhora da Guia) e no segundo domingo de agosto no lugar do Fontão (Nossa Senhora da Ajuda).

Na música e no desporto destacam-se a Sociedade Recreativa e Musical Loriguense (1 de julho de 1906) e o Grupo Desportivo Loriguense (8 de abril de 1934).

De um passado exuberante norteado pelos lanifícios, Loriga volta a apostar no seu território, nas suas gentes, na sua memória, nas suas tradições e no seu potencial paisagístico, numa perspetiva de se revalorizar e tornar sustentável a sua economia assente num turismo rural e nos novos paradigmas decorrentes da revitalização da praia fluvial no verão, da neve no inverno e nas tradições em outras datas.

Hoje, com o desmoronamento do edifico têxtil, que alimentou durante anos com os seus cheiros, os seus odores e a gramática do quotidiano vivencial daqueles que nunca partiram, vêem-se doravante, as apostas no turismo de Natureza, na riqueza paisagística local ímpar, no pedestrianismo, na gastronomia, na neve no inverno e na praia fluvial no verão.

A vila de Loriga é, nos dias que correm… uma referência de verdade, postada majestosamente no seu vale glaciar milenar, onde as suas paisagens idílicas, com destaque para os seus socalcos e poços diversos ao longo das suas 2 (duas) ribeiras, alimentam quem prefere o campo e a serra do interior do país.

Felizmente, que temos muitíssimo para oferecer, começando pela hospitalidade das suas Gentes, que é cativante e muito carinhosa, em simultaneidade com os seus soberbos espaços naturais e locais para permanecer uns dias e degustar tão deliciosas iguarias…

Augusto Moura Brito – 01/06/2021

 

[1]  CAVACO, Carminda e MARQUES, Isabel – 1966 – “Os Vales de Loriga e de Alvoco na Serra da Estrela. Estudo de Geografia Humana”, Finisterra Vol. I, nº 2, pp. 188-239.
[2] RIBEIRO, Orlando, Contribuição para o estudo do pastoreio na Serra da Estrela, Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, VII, n.º 1-2, Lisboa, 1941, pp. 225.
[3] CAVACO, Carminda, e MARQUES, Isabel, “Finisterra” (Centro de Estudos Geográficos) vol. I n.º 2 Lisboa 1966.
[4] Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Livros Horizonte, Vol. 3, 3.ª edição, Mem-Martins Sintra, pp.442.
[5] A alineação de terras, pelos nossos primeiros reis, a favor de nobres e mosteiros – a guerra ia justificando tamanho desiderato – tornavam as receitas régias insuficientes! A necessidade de acautelar o património régio e aumentar os rendimentos, levou D. Afonso II e seus sucessores, a tomar medidas para estancar aquilo que se dizia ser urgente encontrar e essencial: toda a legitimação da propriedade deveria ser autenticada doravante! É neste contexto que, a partir de 1220, se inicia a inquirição da autenticidade da posse dominial, promulgando-se as Inquirições para verificar “in loco”, quais as terras da Coroa que se encontravam em posse indevida na Nobreza e no Clero. No livro das Inquirições de D. Afonso III em 1258 (era de César), no folio onde se delimita a área de inquirição, verificamos que as terras de Sea e de Gouvea, e de Trancoso, bispado de Lamego. Viseu até Trancoso indo direito até ao Douro… no folio XXII, linhas 5, 6 e 7, refere que as terras de toda a terra de Sena que são hereditárias e provadas pelas leis, exceto as de Sandomil e Loriga que foram doadas a Johane Rhania…
[6] Temos todos estes documentos disponíveis em registo fotográfico, obtidos enquanto estudante na F.L.L.
[7] In, Diário do Governo em 19-11-1855.
[8] As novas datas da fundação das fábricas, foi retirada dos Inquéritos industriais dos anos de 1862-63, 1881, 1890, 1917 e 1937.
[9] Mais novidades, serão apresentadas no livro “A indústria dos lanifícios na vila de Loriga” em fase de conclusão.

 

 

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Começou a funcionar no Verão de 1998, tendo sido inaugurada oficialmente no dia 27 de Julho de 1999.
O Secretário de Estado do Ambiente José Guerreiro, deslocou-se a Loriga para a inauguração oficial.
Com análises efectuadas pela sub-região de Saúde da Guarda estas águas, de verdadeira pureza e límpidas, “podem até ser bebidas sem qualquer tratamento” dão ainda maior relevo à atribuição da bandeira verde, pelo facto de ter sido esta Praia a única no Distrito da Guarda a merecer tão elevada distinção.
Situada numa magnifica paisagem desta localidade e da Serra da Estrela, é na realidade um local atraente e agradável para tempo de descanso e de lazer, não havendo quem, dadas as condições, resista a dar um mergulho naquelas águas cristalinas.
Estão ainda em curso outros projectos, que incluem a criação de infra-estruturas, que visem tornar ainda mais apetecível aquele lugar e a Praia fluvial.

@Fotos de TIAGO LUCAS

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