A Queda do avião em LORIGA – 22-02-1944

 

O embate do avião

 

      Autor dos textos: Augusto Moura Brito

 

Na vila de Loriga… em plena Serra da Estrela, em tempo de exploração de volfrâmio, no ocaso da II Guerra Mundial e num Portugal “neutral…” caiu um avião!

Foi na madrugada do dia 22-02-1944 entre a 1H e as 2H em pleno Entrudo, quando alguns Loriguenses se preparavam para seguir serra acima, uns a caminho das minas e filões do minério, outros para fazer carvão e ouvem um ruído muito estranho… um roncar mesmo, voando mais baixo do que era costume. Alguém, com uma voz de espanto e admiração disse: “vai em dificuldades”!

Minutos depois… o embate na Penha do Gato foi inevitável!

Tudo aconteceu num ápice e, sem que a mão humana pudesse fazer o que quer que fosse para evitar tão desagradável e horrendo desfecho, esse avião despenhou-se… provocando um enorme clarão e uma explosão, que projetou a tripulação e sinalizou o local exato onde tudo aconteceu – Barroca do Marte Amieiro – junto à Fraga Alcabreiro, próximo da Fonte dos Carreiros.

 

Desconhecem-se na totalidade as razões da sua queda!

Porém, sabemos que o dia se tinha apresentado com céu azul – um dia primaveril – mas à medida que o dia chegava ao fim, a zona da Garganta e das Penhas de Loriga, iam-se cobrindo de nevoeiro dificultando a sua visibilidade.

A tragédia provocou em muitos loriguenses um frenesim compulsivo! Naqueles que ficaram em casa… nos que trabalhavam nas fábricas… nos que se preparavam para subir a serra para explorar o minério e… nos que iam fazer carvão. Nos dois últimos, a curiosidade e a ajuda, impeli-os a dirigirem-se para o local onde tudo tinha acontecido.

Mais afoito e corajoso, chega ao local o primeiro deles – o senhor Álvaro Abrantes Pina – que se depara com um espetáculo medonho… ficando horrorizado! Um avião completamente desfeito e muitos destroços.

Decidido… percorre toda a área envolvente do sinistro na procura incessante de alguém vivo, mas só vê sucata e ferros! Chama… chama e ninguém responde! Repentinamente, vê seis vítimas… já em sono profundo!

Seguiram-no outros, que viram também munições em grande quantidade “que parecia milho”… metralhadoras… “very lights” (lançador de foguetes luminosos) … dois motores do avião… muita chapa e também as vítimas mortais!

 

Após o acidente… foi necessário proceder ao transporte dos mortos e à limpeza da sucata!

Os mortos, depois de alertadas as autoridades concelhias, foram cobertos com cobertores, colocados em sacos e levados em padiolas nesse mesmo dia para a Capela de Sto. António na vila de Loriga…

Quanto à sucata, o senhor Emídio Moura Pina auxiliado por um outro, teve a responsabilidade de desmanchar o avião peça a peça!… Durante quinze dias, o tempo que durou o desmantelamento e o transporte serra abaixo até à vila, num percurso que durava duas horas, a azáfama foi muita.

Da tragédia, o que se sabe é que tinham estado a jantar na noite anterior num restaurante em Gibraltar – foi encontrada uma fatura no meio dos destroços – e iam para o Reino Unido “passar” o Carnaval…

Os corpos dos seis malogrados militares, cumpridas as formalidades, seriam enterrados no Cemitério local onde ainda se encontram, num espaço cedido para o efeito pela Junta de Freguesia de Loriga. O funeral – o maior de sempre – seguiu da Carreira junto à capela de Sto. António para apanhar a EN 231, seguindo até à Senhora da Guia Nova, para depois descer na direção do Cemitério, sempre acompanhados pela Banda da Sociedade Recreativa e Musical Loriguense ao toque da marcha fúnebre “Última Hora” e uma multidão de gente.

 

 

Os testemunhos

 

Segundo o testemunho[1] de Augusto Pinto Aparício, de 88 anos, que tem bem viva na memória a recordação da queda do avião nos penedos da serra: “Os corpos dos aviadores vieram logo para baixo e ficaram na Capela de Santo António durante uma noite e ao outro dia foi o funeral”, e lembra-se de que: “veio cá um padre da religião deles e a banda também foi. Deram dois contos de reis para a banda lá ir e eu nessa altura tocava lá e também fui”. Refere ainda que: “O cortejo fúnebre dos aviadores nem foi pelas ruas habituais, porque o padre nessa altura quis dar uma pujança ao funeral e foi feita uma distância enorme para ir até ao cemitério. Foi para mostrar que apesar de não sermos da mesma religião também tínhamos sentimentos por eles”. Termina dizendo: ” o padre deles lá os enterrou, esteve a responsá-los, mas a gente não entendia nada e apesar da situação ainda nos rimos um bocado”.

Outro testemunho, foi o de José Pina Gonçalves, de 71 anos, e conta: “tinha oito anos e quando ia de manhã para a escola ouvi dizer que tinha caído um avião na serra, mas como era muito novo não me deixaram ir vê-lo”. Adianta que: “os corpos foram transportados em cobertores para a capela e eu e os meus colegas fomos lá vê-los”.

Para terminar, refere: “apesar de na altura ainda não ter muita noção dos acontecimentos, mais tarde foi recolhendo elementos sobre o maior acidente ocorrido na freguesia no século passado. Descobriu que na altura a Câmara Municipal de Seia “não queria que o funeral deles fosse em Loriga, mas o padre e o presidente da Junta da época impuseram-se e disse que Loriga tinha condições para fazer um funeral condigno “.

Em 19/11/2019, contou-nos o José Moura Pina, que Manuel Carvalho, genro de António Cabral Leitão, casado com a sua filha mais velha de nome Isabel, emigrados no Congo belga, mas em Loriga nessa data, ajudou a interpretar uns documentos que tinham escapado da explosão do avião. Sobre a sucata do avião, disse ter vindo para a Junta da Freguesia, colocada no “Terreiro da Lição” e vendida ao senhor Valério Fernandes Cardoso.

Também nesta data, em conversa com o Mário Alves dos Santos, nos disse que o seu pai, José Santos Furtado, dizia repetidamente, que tinha também ido ao local onde caiu o avião e, no meio de muita confusão, pegou em dois sapatos e trouxe-os consigo. Quando chegou a casa e vai para os calçar, verifica que eram do mesmo pé!…

No dia 21/11/2019, ouvimos através do telefone de António José Cabral Leitão, o senhor Mário Lemos Conde que, além de corroborar a veracidade da intervenção de Manuel Carvalho em ajudar na decifração de algumas mensagens, que a sua mãe Maria do Carmo, nesse dia e hora em que caiu o avião, estava a passar roupa no último piso da casa de António Cabral Leitão e, quando viu um clarão na serra, pensou logo no “filão rico” de volfrâmio – próximo da Garganta. Saiu a correr e foi para junto dos filhos, tentando acalmar a agonia que ia dentro de si, porque pensava que aquele clarão… tinha sido na mina onde se encontrava seu marido. Só no dia seguinte, teve conhecimento que tinha sido um avião que tinha caído próximo da mina!

Em 23/11/2019 tivemos o depoimento de Aurora Ramos, via Messenger, que nos contou as memórias de seu pai, Carlos Pereira Ramos, um loriguense que trazia no coração a sua terra natal e vivia com muita intensidade o dia da queda do avião.

Carlos Pereira Ramos casou com Maria do Carmo Alves Garcia em agosto de 1944 e partiu para o Brasil com a sua família em 9 de abril de 1951. Ao deixar-nos uma transcrição da realidade tal e qual como tudo aconteceu, é para nós, o repórter mais fidedigno da tragédia porque registou com fotografias o local do acontecimento.

Aurora Ramos, começou por nos contar a memória que seu pai, lhes relatava com emoção e tristeza. Creio ser muito sucintamente, uma memória episódica, nostálgica e revivalista da sua ligação a Loriga e ao acontecimento. Dizia ele: “Estávamos todos dormindo quando acordámos com um grande estrondo! Ficámos muito assustados sem saber o que era, porque estava muito escuro, mas mal começou a amanhecer, fomos ver o que tinha sido aquilo que tanto medo nos deu. Como estava muito escuro e frio, não saíram de suas casas, pois não sabiam exatamente o que era. Ainda não havia amanhecido totalmente, saíram para saber o que tinha sido aquele estrondo e, logo depararam ao olhar para todos os lugares na serra, na zona da Penha do Gato, com um avião totalmente destroçado”.

Conta-nos que o seu pai, sempre “colado” ao senhor Cabral Leitão, o viu avisar o Presidente da Câmara de Seia do ocorrido. Sem demoras, correu imediatamente para Loriga e, junto com o Cabral Leitão, foram para os Correios para telefonarem para Lisboa.

Ligaram para o Ministério da Guerra, e o Presidente da Câmara, dizia ao telefone: “Temos um avião caído de madrugada aqui em Seia”. Aí, o senhor Cabral Leitão disse: “Oh homem, fale direito! Não caiu em Seia e sim em Loriga”, ao que o Presidente da Câmara de Seia teve de corrigir.

Depois disso, Aurora Ramos, diz-nos que seu pai, Carlos Pereira Ramos, que o senhor Cabral Leitão forneceu sacos, agulhas e barbante[2] para transportar os corpos, que ainda não sabiam o estado deles… alguns em péssimo estado. Recolheram aos poucos e seu pai – aqui quase chorando – foram colocando delicadamente nos sacos, transportando de seguida tudo para a Vila. No meio desta azáfama, pegou sua máquina fotográfica e fez fotos junto com os amigos.

Disse-nos ainda que no funeral, esteve uma representante da África do Sul, e que orgulhosamente seu pai dizia que a auxiliou a andar para o cemitério de braço dado, porque ela estava de saltos.

Por último, ele contava que houve uma consternação geral em Loriga com o facto…

Para concluir, deu-nos uma novidade: “que em fevereiro do próximo ano trazia consigo a máquina e os artefactos para fazerem parte do acervo da Junta de Freguesia de Loriga”, o que agradecemos!

Em 24/11/2019 ouvimos o António Matias Ribeiro que nos contou que seu padrinho, José Pires Figueiredo, mais conhecido por José da abelha, serralheiro na oficina Pedro Vaz Leal e possuidor de uma pequena oficina com uma pequena forja num anexo da sua casa, tinha trazido dos destroços do avião muitas peças e parafusos que guardou lá “religiosamente”!

Quando em 1951 José Pires Figueiredo emigrou para o Brasil, logo transmitiu ao seu tio Álvaro Jorge Ribeiro, que toda a ferramenta existente na sua oficina ficaria para o seu afilhado António Matias Ribeiro nosso entrevistado. Dessa ferramenta, das peças e parafusos do avião existentes na pequena oficina, disse-nos ter criado durante muitos anos muitas peças.

É muito comum ouvir dizer-se, embora sem provas documentais[3] concludentes, que uma das consequências materiais imediatas deste acidente de aviação – a receita proveniente da venda da “sucata” – ter sido utilizada para empedrar a rua principal da vila, a rua Gago Coutinho e Sacadura Cabral (antigas ruas Direita e da Praça, alteradas no ano de 1922) desde o Santo Cristo à Estação dos CTT.

Entretanto, a nossa investigação disponibilizou-nos documentos, de que no dia 2/10/1949 a Junta de Freguesia de Loriga mandou fazer um orçamento de colocação dos esgotos e substituição da calçada, entre a Carvalha e a Igreja Matriz, numa distância de 1.100 metros, e o seu custo era de 60.000$00, na condição de a Junta pagar 15.000$00[4] e o restante ser pedido à Câmara Municipal de Seia. Todavia, só em 28/03/1950, foi aprovada a proposta do calcetamento da rua Gago Coutinho e Sacadura Cabral, a Joaquim de Sousa Couto de Nespereira: paralelo de 1.ª 56$50 m2 à faixa de rodado e 55$00 m2 de valeta cubos de 1.ª, sendo pedido à Câmara Municipal de Seia um subsídio para esta obra. A tampa de saneamento do lado esquerdo, ainda hoje existente, é uma prova irrefutável.

[1] Os dois testemunhos foram prestados ao jornal Diário das Beiras no ano de 2008.
[2] Significa: Guita; cordel.
[3] Entre o início de 1942 e final de1945 só existem 6 atas. Foi o período da presidência do Pe. António Mendes Cabral Lages.
[4] Por coincidência ou não, fala-se de que o valor pago pela “sucata” foi igual.
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O contexto da II Guerra Mundial

 

Mas porque razão viajavam nesse avião, dois ingleses e quatro sul africanos?

Por razões históricas, a África do Sul (União Sul Africana) tornou-se independente do Reino Unido no ano de 1931, com a promulgação do Estado de Westminster e, fez parte da Commonwealth até ao ano de 1961 (ano da sua independência política). Estes dois estatutos, contribuíram para que a África do Sul e o Reino Unido estivessem juntas nas duas guerras mundiais.

Na II Guerra Mundial – 1/09/1939 a 2/09/1945 – fizeram parte integrante das forças do Eixo, como se verifica no quadro abaixo:

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As visitas ao Cemitério

 

 

Anthony Eden e Clarisse Churchill Eden

 

Também a Inglaterra e a África do Sul não esqueceram os seus filhos!

No ano de 1952, Anthony Eden – vice-primeiro ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros até 1955 e primeiro ministro até 1957- quando do seu 2.º casamento com Anne Clarisse Eden, filha de Winston Churchill e, em lua de mel no Hotel da Urgeiriça, visitou a vila de Loriga.

Quando chegou à vila de Loriga e contatou com as autoridades locais, deslocou-se ao Cemitério e foi visitar as sepulturas dos militares mortos em 22-02-1944 onde, após prestar a sua sentida homenagem, demonstrou muita surpresa, regozijo e a sua admiração pelas condições dignas em que se encontravam as campas e ter encontrado uma outra, também de um inglês de nome James, ali sepultado em 9/11/1911.

Após ter agradecido o seu sentimento e ficar muito grato com tamanha dedicação evidenciada pelos loriguenses aos seus concidadãos, teve o ensejo de admirar a paisagem natural de Loriga, ficando profundamente estarrecido com tamanha beleza natural… ao que exclamou: “Isto é dantesco… em Loriga o belo conjuga-se com o horrível”!

Por outro lado, a África do Sul, através da sua embaxadora Mmamokwena Gaoretelelwe, têm sido uma presença assídua na vila de Loriga, estando presente no dia 1-11-2017 e no dia 1-11-2018, onde assistiu às cerimónias iniciadas na sede da Junta de Freguesia de Loriga, a uma missa celebrada na igreja matriz, a uma procissão e, por último, junto das sepulturas dos seus compatriotas.

No dia 1/11/2019 – Dia de Todos os Santos – visitaram Loriga os senhores: Conselheiro Hugo Labrechts, da Embaixada da África do Sul em Lisboa e o Conselheiro Thapedi Masanabo, da Embaixada da África do Sul em Paris, acompanhados do motorista e intérprete.

Após a sua chegada a Loriga, foram recebidos pelos elementos da Junta e Assembleia de Freguesia de Loriga no salão nobre, Álvaro Santos Aparício, deslocando-se depois para a igreja matriz onde assistiram à missa.

No fim, em Procissão, rumaram para o Cemitério, onde assistiram às cerimónias religiosas dirigidas pelo Pe. João Barroso. Esta visita permitiu ao executivo da JFL a oportunidade de todos abordarem a temática do orçamento participativo e da proposta ganhadora do trilho da caminhada ROTA DE HOMENAGEM AOS PILOTOS DA RAF.

 

 

 

 

Manifestações de dedicação

 

Não obstante o caráter trágico do acontecimento, as Gentes de Loriga foram, desde os primeiros momentos, impelidas voluntariamente a realizar manifestações de homenagem às vítimas, quer sob a forma religiosa, quer sob a forma lúdica. Ainda hoje os loriguenses, sentem com muito pesar e dor esta efeméride, como se ela tivesse acontecido há pouco tempo. A dor profunda e um sentimento de repulsa ainda continua ativo e, na tentativa de contrariar tal desiderato evasivo, as homenagens sentidas e sinceras tem-se revestido, ora através de versos… ora através de outras atitudes.

Os aviadores mortos na serra no dia 22-02-1944, fazem parte do imaginário loriguense, não havendo hoje nenhum que não conheça sumariamente a história da Queda do Avião. Através desta narrativa histórica, pretendemos com muito simbolismo e, quiçá, com muita modéstia, expressar o nosso ensejo… reavaliando-o e reavivando-o.

Como já afirmámos, os loriguenses, que nunca conheceram as vítimas, continuam a demonstrar a sua ternura e o seu apego e, no dia de 1 de novembro – dia de Todos os Santos – “rendem-lhes” o seu sentimento profundo.

São inúmeras e variadas as formas de imortalização realizadas por loriguenses desde os primeiros momentos. Vamos enumerar as mais significativas: em abril de 1944 foi a D. Filomena Nunes de Brito, que fez uns versos, seguida por dois outros, quase de imediato, Abílio Macedo Pina e António da Costa Madeira.

Vamos ver…

Versos de Filomena Nunes de Brito – abril de 1944

 

Versos de Abílio Macedo Pina (I e II) e António da Costa Madeira – 1944

Entretanto em junho de 2012, o tema das Marchas de Loriga foi o Minério, de autoria de Maria Adélia Lopes Prata, uma temática coeva do acontecimento de 22-02-1944 e, também uma memória inesquecível do povo de Loriga. No verso VI, constatamos a alusão aos militares mortos.

Os seus versos e alguns registos do evento:

 

Versos de Maria Adélia Lopes Prata – Marchas de Loriga no ano 2012

Tema: O Minério (No verso VI faz alusão ao avião)

Também no local onde o avião se despenhou tem acontecido algumas manifestações. Romagens, a colocação de uma CRUZ a sinalizar o lugar e rituais litúrgicos, são estas as manifestações mais comuns, aliadas à dor, sofrimento e à pena profunda…

Em 23-02-2014 a Irmandade das Almas de Loriga mandou celebrar uma missa por alma dos militares ao Pe. João Barroso e nada levou!… No dia 1 de maio de 2014, a Irmandade e a Junta de Freguesia de Loriga, homenagearam os mortos com uma caminhada até ao local do acidente onde depois colocaram uma cruz no sítio do embate e, o pároco de Loriga Pe. João  Barroso, celebrou uma missa…

Para que este sentimento continue enraizado em todos nós e possa constituir mais um local de memória e historicidade, um grupo de loriguenses liderados por António Marques Garcia, José Manuel Santos com o apoio da JFL, concorreram no âmbito do 4.º Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Seia – 2019/2020 – com o projeto “ROTA de HOMENAGEM aos PILOTOS da RAF”.

Em resumo, o projeto é o seguinte:

“Foi no dia 22 de fevereiro de 1944, em plena II Guerra Mundial, que o avião inglês Hudson EW 906 da Royal Air Force (RAF) se despenhou na Penha do Gato, na nossa Vila de Loriga. Desde então que o local da “queda do avião” se tornou um espaço de “culto” para os loriguenses e ultimamente, também para muitos turistas que nos visitam. O local da “queda do avião” como é assim conhecido, situa-se muito próximo de uma das rotas pedestres mais procuradas na vila de Loriga, do concelho de Seia e de todo o Parque Natural da Serra da Estrela: a rota da Garganta de Loriga.

Neste sentido e no âmbito do Orçamento Participativo de Seia 2019, promovido pelo Município de Seia, pretende-se efetuar uma proposta que prevê a criação de uma derivação pedestre da rota da Garganta de Loriga para o local da “queda do avião”, Com a execução deste novo traçado queremos homenagear os pilotos da RAF e reforçar a importância da rota da Garganta de Loriga como vital infraestrutura turística para o desenvolvimento da vila de Loriga, do concelho de Seia e do Parque Natural da Serra da Estrela, bem como contribuir para a divulgação e valorização dos recursos naturais e culturais deste território”.

Esse projeto seria um dos vencedores, sendo-lhe atribuída a verba de 12.500€ com IVA.

 

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As pedras tumulares

 

Sobre as pedras tumulares existentes no Cemitério de Loriga e que a Junta de Freguesia num belo gesto, tomara a seu cargo a conservação perpétua, verificámos que foram colocadas no dia 17 de junho de 1951, com a presença de uma multidão de loriguenses – as fábricas, as oficinas e o comércio da vila encerraram – estando presentes o Presidente e os vogais da Junta de Freguesia de Loriga, o Regedor, Professores, representantes das organismos sociais, a banda da Sociedade Recreativa e Musical Loriguense, o Grupo Desportivo Loriguense, a Sociedade e Defesa de Propaganda de Loriga.

Depois de prestarem as honras aos srs. Cônsul-geral e vice-cônsul ingleses, adido naval junto da Embaixada de Inglaterra e srs. Campbel, também da Embaixada britânica; Marie, representante da União Sul Africana; padre Johnston, capelão da comunidade britânica no Porto; Robutson, Janings, Vigne e Reid, todos representantes da RAF; Grahan e esposa; Nekenzie, Cassels e vários membros da colónia inglesa no Porto, seguiram em cortejo da avenida Augusto Luiz Mendes até ao Cemitério.

As pedras tumulares dos seis malogrados militares, quatro sul africanos e dois ingleses:

 

Mas os parcos recursos da Junta de Freguesia de Loriga têm-se revelado insuficientes e, as várias solicitações feitas junto das Embaixadas, resultaram em contributos vários. Porque esta narrativa é coincidente com a análise que temos vindo a realizar das atas[1] dos Executivos da Junta de Freguesia de Loriga, vamos aqui transcrever algumas decisões, tomadas:

  • Em 5/12/1961 a Junta de Freguesia recebeu um ofício do consulado Britânico onde referia que a partir desta data atribuía ao guarda do Cemitério a quantia de 150$00 para zelar pelas sepulturas dos seis aviadores;
  • Em 2/09/1963 recebeu um ofício do cônsul Geral da Inglaterra para que, a suas expensas, se mandasse pintar a cor preta as grades que vedam os mausoléus existentes nesta freguesia dos seis malogrados aviadores daquela nacionalidade caídos no desastre de avião na parte superior da Serra da Estrela, limite desta freguesia. Igualmente foi muito apreciada a boa impressão que do nosso Cemitério levou, aquela autoridade aquando da sua visita durante o mês de agosto findo (1963);
  • Em 2/08/1972 foram partidas no Cemitério, por uma doente mental, três pedras tumulares dos aviadores ali sepultados, deitando-as do muro abaixo e partindo-as. Pelo facto, foi pedido ao ex.mo senhor Cônsul-Geral de Sua Majestade Britânica do Porto para mandar fazer outras iguais ou informar-nos como e onde foram esculpidas, afim de, por conta desta Junta serem repostas nos seus devidos lugares, tendo prometido evitar tal facto futuramente;
  • Em 2/11/1972 foi pedido pela embaixada Britânica de Lisboa os elementos das pedras tumulares que não foram destruídos.
  • Em 3/01/1973 foram enviadas para o Cônsul Geral de Sua Majestade Britânica fotos e um desenho com as medidas das campas. A resposta foi a de manifestarem vontade de visitar e falar sobre o futuro;
  • Em 2/03/1973 foi recebida uma carta do Cônsul Geral de Sua Majestade Britânica a participar da sua vontade de deslocar-se a Loriga no dia 14/3 a fim de trocar impressões acerca da substituição das pedras tumulares das campas, as quais têm de vir da Grã-Bretanha;
  • Em 3/04/1974 foi recebido do Cônsul Geral de Sua Majestade Britânica, datado de 18/01, a informar de que as três pedras tumulares destruídas seriam remetidas a esta autarquia, afim de serem colocadas nos seus devidos lugares, como estava no envio do diagrama de disposição entretanto enviado. Em 21/3 a Junta respondeu que as pedras tumulares já estavam colocadas enviando duas fotos onde já estavam as seis sepulturas;
  • Em 5/03/1975 foi recebida uma carta do Cônsul Geral de Sua Majestade Britânica a procurar saber sobre a manutenção e conservação das sepulturas no Cemitério;
  • Em 4/06/1975 a Junta disse que no dia 22/5/1975 se tinha deslocado a Loriga o Cônsul Geral de Sua Majestade Britânica acompanhado de sua esposa indo visitar o Cemitério;
  • Em 3/03/1976 foi pedido pelo Cônsul Geral de Sua Majestade Britânica informações sobre as sepulturas;
  • Em 6/04/1978 foi recebida uma carta da Embaixada Britânica a pedir informações sobre o estado das sepulturas;
  • Em 5/04/1979 recebeu da Embaixada Britânica um ofício a informar da visita do Diretor da Comissão das Sepulturas das Forças Armadas Britânicas ao Cemitério no dia 11/05/1979.

 

Bibliografia

  • Testemunhos de
    • António Gomes Costa
    • José Moura Pina
    • Mário Alves dos Santos
    • Mário Lemos Conde
    • António Matias Ribeiro

 

[1] As atas analisadas reportam-se até ao ano de 1985 e fazem parte do próximo livro. À medida que decorrer a nossa pesquisa, iremos sempre que possível, atualizando os dados.

 

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As biografias[1] e certidões de óbito dos militares

 

Capitão R. T. Hildick era o filho mais novo de Mister B. H. Hildick de Joanesburgo e nasceu em Pretória no dia 4 de novembro de 1922. Foi educado na Escola Arcádia e depois na Escola de Eduardo VII, na qual foi prefeito, sendo Tambor Mor dos Cadetes. No desporto era exímio, sendo escolhido para defender as cores do seu Clube, no Rugby e Criquet, no team de Nuffied Shield Criquet, distinguindo-se, também, no Atletismo e Natação.

Alistou-se na Força Aérea Sul Africana, no dia 21 de janeiro de 1941, como aluno piloto, recebendo instrução de treino na 75.ª Esquadrilha Aérea de Pretória, treino que terminou em 13 de fevereiro de 1942, quando foi promovido a 2.º Tenente Piloto.

Em 31 de outubro de 1943, deixou a União Sul Africana e seguiu para a Real Força Aérea, onde servia na 48.ª Esquadrilha, sendo depois promovido a Capitão.

Foi uma das vítimas do avião Hudson Aircraft E. W. 906 que deixou Gibraltar no dia 21 para 22 de fevereiro de 1944 e embateu na Penha do Gato.

 

Tenente J. Barbour era o 5.º filho de Mister T. J. Barbour de Edimburgo, Escócia e nasceu em Edimburgo no dia 9 de julho de 1914. Foi educado na Escola de Stockbridge e depois na Escola Comercial de Steyensons, na Flora. Esteve ao serviço da Companhia Escocesa de Motores de Tração como seu Agente de Negócios.

Alistou-se na África do Sul, na Força Aérea, no dia 1 de julho de 1940, como Sargento Mecânico, breve que obteve a promoção a primeiro Sargento, em 7 de julho de 1941. Tendo-se classificado num curso de especialista de Metralhadoras Aéreas em 1 de abril de 1941 passou às Metralhadoras com esse posto. Em 6 de maio de 1943 foi promovido a Tenente. Em 31 de outubro, deixou a União Sul Africana para se incorporar na Real Força Africana, na qual servia na 48.ª Esquadrilha.

Foi uma das vítimas do avião Hudson Aircraft E. W. 906 que deixou Gibraltar no dia 21 para 22 de fevereiro de 1944 e embateu na Penha do Gato.

 

Tenente J. P. Thom era o 5.º filho de Mister J. Thom e de sua esposa, da cidade de Cabo. Nasceu em Umbigintwni, na costa sul do Natal, sendo um distinto jogador de Criquet e de Tenis. Durante um ano frequentou um curso de arte numa Escola Comercial. Na sua permanência no Exército, foi desenhador da Força Aérea da África do Sul. Na vida civil era empregado numa casa comercial como agrimensor.

Alistou-se na Força Aérea da África do Sul, em 7 de junho de 1940, como metralhador, sendo promovido a Sargento do Ar em 12 de março e no imediato no dia 1 de janeiro de 1942. Durante este ano frequentou um curso da Especialidade de Metralhadoras, contra aeronaves, sendo graduado no posto de 2.º Tenente em 6 de novembro de 1942 e promovido a Tenente em 6 de maio de 1942. Em 31 de outubro de 1943 deixou a União Sul Africana para se incorporar na 48.ª Esquadrilha.

Foi uma das vítimas do avião Hudson Aircraft E. W. 906 que deixou Gibraltar no dia 21 para 22 de fevereiro de 1944 e embateu na Penha do Gato.

 

Tenente D. DE W. Walters (South Africa) era filho de Mrs. e capitão D. DE W. Walters de Clan William, da Província do Cabo, África do Sul. Nasceu em Clan William em 9 de junho de 1915. Foi educado em Porterville onde foi um aluno brilhante. Pertencia ao Rifle Club onde foi um excelente atirador. Ficando órfão, teve que deixar a escola para ganhar a vida e entrou ao serviço na General Motors S. A. Ltd. em Port Elizabeth onde se qualificou como mecânico de automóveis. Alistou-se na Força Aérea da África do Sul em 20 de abril de 1942 como aluno do Observador Air na 75.ª Air School em Pretória. Após a conclusão da sua formação em 6 de março de 1943 foi contratado como segundo Tenente. Em 6 de setembro foi promovido a Tenente e no dia 31 de outubro de 1943 deixou a União Sul Africana para se incorporar na 48.ª Esquadrilha.

Foi uma das vítimas do Hudson Aircraft E. W. 906 que deixou Gibraltar na noite de 21 para 22 de fevereiro de 1944 na Penha do Gato em Loriga em 22 de fevereiro de 1944 e embateu na Penha do Gato.

 

Cabo H. E. Hedges com a idade 30 anos. Inglês. Alistou-se na RAF em 6 de junho de 1940. Último parente próximo: Pai Irmão Mr. H. E. Edges.

Foi uma das vítimas do Hudson Aircraft E. W. 906 que deixou Gibraltar na noite de 21 para 22 de fevereiro de 1944 na Penha do Gato em Loriga em 22 de fevereiro de 1944 e embateu na Penha do Gato.

 

 

1.º Cabo J. L. Walker, com a idade de 26 anos. Inglês, natural de Leicester – Inglaterra. Alistado na RAF em 11 de dezembro de 1939. Último parente próximo: Irmã Mrs H. O. Hall.

Foi uma das vítimas do Hudson Aircraft E. W. 906 que deixou Gibraltar na noite de 21 para 22 de fevereiro de 1944 na Penha do Gato em Loriga em 22 de fevereiro de 1944 e embateu na Penha do Gato.

 

 

[1] Dados recolhidos por António Dias através de um amigo que o aconselhou a dirigir-se ao adido do Ar N. E. Morrison.

Reportagem RTP acerca da Queda do avião que vitimou os seis militares.

@Fotos de TIAGO LUCAS

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